A VIGÍLIA DO FOGO
/ Iago Gouvêa e Paulo Agi

25M
OUT-NOV 2026

São Paulo / Brasil




curadoria em colaboração com João Paulo Quintella

“Ser abrigo e mistério na urgência da vida”

- prisca agustoni

Os vestígios mais antigos do fogo na Terra remontam a cerca de 420 milhões de anos. No alvorecer do mundo, a Terra primitiva começava a ser coberta pelas primeiras vegetações que, ao se espalharem, abundavam a atmosfera em oxigênio, tornando-a apta a alimentar a combustão. Foi então que os raios, ao riscarem o céu e tocarem as árvores, despertaram as chamas. Assim, o fogo principiou sua longa e incandescente história sobre o planeta. Hominídeos como o homo erectus foram os primeiros a colher brasas deixadas pelos toques luminosos dos raios; mantinham-as vivas, mas, caso o fogo se apagasse, não sabiam como reacendê-lo. 

Foi apenas entre os neandertais que se aprendeu a técnica de triangulação do fogo, movida por fatores físicos da ignição, a partir do calor, da combustão e do oxigênio, ao produzir faíscas intencionalmente a partir do uso de pedras: para melhor acalentar seus corpos; para melhor manter suas existências. Entre incontáveis desdobramentos, o carvão colhido desses fogos intencionais teria permitido aos humanos primevos esboçar, nas paredes das cavernas, as primeiras representações do mundo natural, nas quais predominava a presença animal. Esse mesmo gesto, no entanto, teria coincidido com o momento em que os humanos, descobrindo-se capazes de representar, se separaram dos animais.

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A sobrevivência é uma experiência íntima e imemorial. Nesta condição, ao mesmo tempo única e universal, a exigência do fogo talvez seja em si mesma uma forma de atenção. É preciso, claro, garantir que seu ímpeto não faça cinzas. O calor que assa o alimento só difere em escala daquele que proclama catástrofes. É preciso, portanto, certa diligência no trato do fogo. A chama ilumina as coisas, mas também as consome; torna o mundo visível enquanto altera aquilo que vemos. 

A vigília do fogo é a sentença que confere à reunião destes trabalhos uma dupla acepção, a do acalento e a do temor. É preciso vigiar a cadência do fogo, estar atento às suas paixões, aos seus deslimites, às suas fomes e aos seus apelos: nenhuma de suas faces se dá sem a outra. Para realizar os trabalhos presentes nesta exposição, Iago Gouvêa precisou conservar com seu próprio corpo o calor do seu forno de cerâmica. As longas horas necessárias para chegar ao ponto que almejava instaurou um procedimento de reciprocidade no qual o artista manipula a matéria ao mesmo tempo que a entrega para que ela responda a condições térmicas específicas. Esse processo exige certas permissões. Para que o fogo atue a seu modo sobre a escultura, sem que a execução do trabalho se perca, Iago se mantém em um contínuo estado de atenção.

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Algumas aves de rapina, como o falcão-marrom e o milhafre-preto, aprenderam a recolher com os bicos e garras galhos em brasa e lançá-los sobre os campos, em áreas de vegetação ainda virgem. O fazem propositalmente para que pequenos animais fujam das chamas, facilitando a caça. Os animais também conquistaram seu domínio do fogo e, como nós, também não sabem medir suas consequências.

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O primeiro rinoceronte a percorrer a Europa moderna como maravilha exótica, no século XVIII, foi exibido diante de multidões que o contemplavam como se a distância entre os mundos humano e animal pudesse ser vencida pelo olhar. A ideia de um saber do olhar que ordena o mundo e as coisas que o habitam é o que zela por tais distâncias. 

Representação, perspectiva e figuração são recursos derivados desse saber. Sua sincronia promete o encontro com o outro ao passo que garante certa distância do mundo empírico. Ao produzir imagens, tais manifestações reproduzem determinadas relações de força. O animal, por sua posição cativa no mundo, mantém com ele uma relação efetiva, diferentemente do homem, que, ao se pensar fora dele, acaba atuando por subtração.

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Em 2007, a exposição “Feras e Humanos”, realizada na Grande Halle de La Vilette em Paris, manteve lontras em cativeiro durante seguidos meses como parte de uma das obras. A instituição seguiu todos os protocolos necessários para o bem-estar dos animais, o que não garantiu um comportamento previsível por parte das lontras. Contrariando o registro prévio de seu comportamento, as lontras surpreenderam a curadoria e pareciam estar bem adaptadas, avançando inclusive em práticas sexuais não catalogadas em seus ambientes naturais. 

Há menos de uma semana, um homem morreu por julgar razoável entrar com seus fones de ouvido e sua própria coreografia onde um tigre siberiano é feito de amostra, em um zoológico na cidade de Yorkshire, na Inglaterra. Houve mesmo um tempo em que animais eram julgados por tribunais humanos, acusados de crimes e submetidos às formas da justiça. A história dessas práticas mostra até que ponto tentamos inscrever os outros seres em categorias que pertencem ao nosso mundo. 

Olhar para os animais hoje é se deparar com a profunda desconexão produzida pelo domínio capitalista da natureza e pelas instituições que o sustentam. Por outro lado, também podemos reconhecer que alguma coisa permaneceu incomunicável, fora de nosso alcance, apesar das tentativas de domesticar a vida e o espaço que ela ocupa. O animal não é apenas aquilo que submetemos, observamos ou protegemos. É também aquilo que não conseguimos assimilar inteiramente.

Houve um mundo em que animais e demais seres partilhavam a mesma língua. A cesura, porém, ocorreu quando ao homem foi outorgado o direito e a capacidade de nomear. No paraíso cristão, essa língua teria sido chamada de adâmica: Deus teria dado ao homem autoridade sobre as feras, e tudo o que pairava sob seu olhar passava à sua sujeição. O homem torna-se, então, solitário e regulador de distâncias demarcadas por suas violências particulares. Em algumas das mais populares fábulas de La Fontaine, por exemplo, os animais também falavam; à medida que o absolutismo avançava sobre a Europa, gerando crises políticas e sociais, fome e miséria, eles emudeceram.

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Algumas das mais populares cartas de marear, foram produzidas ao cruzar oceanos desconhecidos. Em forma de relatos oficiais, cartas náuticas e diários de bordo muitas delas foram preenchidas por criaturas extraordinárias. Elas dividiam-se entre os terrores herdados da Idade Média e a fauna real que a ciência da época ainda não conseguia catalogar. Foi com base nessa visão limitada de mundo que se teriam formulado as premissas da representação pictórica. O saber do olhar, instituído diante da apreensão do estrangeiro e do desconhecido, teria, em linhas gerais, estabelecido uma relação de distanciamento entre o homem e a natureza.


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Talvez o medo comece onde perdemos a medida das coisas. A pintura de Paulo Agi está, de algum modo, atrelada a esse assombro do mundo. O movimento voraz dos animais é tão perturbador quanto sua espreita. Diante deles, não sabemos exatamente o que nos ameaça, ou sequer se há alguma ameaça. Algo permanece oculto, atuando ao mesmo tempo como força potencial e vestigial. A pintura parece habitar esse intervalo em que as formas podem se alastrar sem se deixar ver por completo. 

Parte significativa dessa fauna que habita as pinturas de Agi é balizada por condições ambientais catastróficas e irreparáveis, em estreita relação com os processos de degradação ambiental do Pantanal e também com um campo de especulação a partir de imagens de um amplo campo de circulação digital. No entanto, através de procedimentos técnicos específicos, de uma textura leve e fugidia, Paulo consegue nos fazer rever certos estatutos da existência animal e humana. Sobretudo porque as relações ecológicas que ali observamos, fundadas em encontros e (des)amparos, regem a convivência entre espécies que afinal são tão pitorescas quanto familiares.

Quando não se revelam parcialmente, nos dão indícios de presença, como se desconfiassem do olhar de quem também os observa. Como se esses animais retornassem para a noite das formas incertas; como se sua presença nas profundezas da opacidade fosse também indispensável: assim nos ensinam os trabalhos dessa mostra. Essa sensação é da ordem da desconfiança. Não é possível aqui um contato olhos-nos-olhos. Quando um ser cruza a fronteira do assimilável ele se torna aterrorizante. Não por ter em si intenções intimidadoras mas por romper os limites da representação e da identificação. A instabilidade interespécies que Paulo e Iago nos indicam parece ter a capacidade de incitar o monstruoso, o espanto, ao mesmo tempo em que a pacificam, a naturalizam como consequência de uma eterna contaminação.

João Paulo Quintella e Yago Toscano