CAMINHOS SELVAGENS
/ coletiva

Itinera Arte
DEZ 2024-FEV 2025

Rio de Janeiro / Brasil


artistas

aline marins, cláudia costa, faride seade, gilda nogueira, raquel benjamim

Uma concha desenhada com padrões abstratos, descoberta na ilha de Java, Indonésia, marca o primeiro registro de desenho atribuído aos ancestrais humanos (Homo erectus), com aproximadamente 400 mil anos de existência. Na África do Sul, uma pedra datada de 70 mil anos foi eleita superfície expressiva pelos primeiros Homo sapiens. As mãos negativas de Gargas, cuja autoria foi durante muito tempo atribuída ao trabalho de crianças, pertencem, na verdade, a mulheres que desenvolveram a técnica de soprar pigmentos sobre as mãos. Encostadas na superfície, as mãos revelavam, por meio da ausência, o contorno complexo dessas elaborações expressivas – desde a coleta dos pigmentos até o sopro dos lábios que as produziram. Lascaux e Chauvet, por sua vez, nos mostram as primeiras observações humanas sobre as aparições sazonais das espécies animais que habitavam os contextos ambientais e geográficos desses territórios. São inúmeros, portanto, os exemplos de como o desenho, desde que pôde ser nomeado como tal, esteve atrelado aos modos de mensuração e observação da vida, do corpo, do ambiente e da partilha entre as comunidades – humanas e animais.

Matisse, em uma de suas aulas, teria afirmado que uma linha necessita de outra que a acompanhe para se tornar um desenho. Poderíamos considerar, então, que o desenho não é uma prática solitária, cuja autoria renega seus antecedentes. Pelo contrário, todo desenho convoca, desde nossa ancestralidade genética, uma espécie de instinto colaborativo, uma condição que mobiliza saberes partilhados entre um grupo e seus diversos contextos sociais, ambientais e raciais, que, porventura, se revelam por meio de gestos estético-políticos. Nesse sentido, a mostra “Caminhos Selvagens” organiza um conjunto de produções elaboradas no curso Desenho na Arte Contemporânea, ministrado por Valerio Ricci Montani na Itinera Arte, inaugurando também seu atual espaço expositivo. Aline Marins, Cláudia Costa, Faride Seade, Gilda Nogueira e Raquel Benjamim, cada uma a seu modo, desenvolvem, a partir da prática do desenho, os inúmeros desdobramentos de suas produções individuais, que se prolongam posteriormente em pinturas e instalações, mas sem negar, desde o princípio, o caráter colaborativo e indicial do desenho como suporte de negociação de suas diferenças.

Aline Marins investiga as relações orgânicas e imprevisíveis entre a observação da vida natural e um gesto que não tenta enquadrá-la, mas ampliá-la. Assim, concebe em seus trabalhos uma espécie de vida anterior dos objetos, revelada na superfície das coisas e na extensão de seus desenhos. Cláudia Costa, por sua vez, recupera, a partir de sua ancestralidade e do habitar na “cidade dos pés vermelhos”, questões cromáticas profundamente ligadas à produção da vida e de subsistência ao ampliar, em larga escala, as entranhas que compõem tanto os nossos corpos quanto a anatomia visceral das topografias do país. Já nas pinturas de Faride Seade, observamos uma espécie de inquietação, como se a pintura se agitasse diante da tentativa de capturar as formas, cores e presenças que atravessam seu olhar. A figuração negocia com o espaço destemido de suas abstrações, intimamente associadas à velocidade do tempo e do gesto que o persegue. Gilda Nogueira utiliza desenho e colagem para elaborar camadas que representam as relações coletivas. Suas imagens remetem a um frenesi, lembrando-nos de que o desenho também é a prática de delinear os rituais cotidianos em negociação com os sujeitos, seus modos de ser e suas comunidades. Por fim, Raquel Benjamim explora a repetição como gesto de força expressiva, ainda que sutil, deixando o desenho de observação surpreendê-la constantemente com nuances que transitam entre disparidade e semelhança.

As assimetrias presentes nas obras das artistas desta exposição não têm o propósito de endossar um discurso complementar à elaboração coletiva do desenho sob uma perspectiva trivial. Pelo contrário, é justamente por meio das diferenças que se produz a tensão necessária para compreender a complexidade de uma produção coletiva – fundamentada na premissa de que toda partilha comunal se constrói essencialmente em razão das subjetividades em questão. O desenho, enquanto enlace radical das singularidades que compõem o coletivo, permite observar indícios de caminhos que nos levam a outras abordagens sobre a matéria, a vida, os sujeitos e as práticas artísticas. Isso ocorre sem se render às lógicas homogeneizantes dos discursos, tão caros às instituições, disciplinas e sistemas que pretendem balizar os modos de se pensar e narrar a arte, tão familiares a nós. Pelo contrário, pensar o desenho como um gesto transformador e reeducador dessas práticas nos permite desmobilizar as estruturas que nos cercam – e, muitas vezes, nos afastam de modos de vida essenciais aos nossos fazeres. Um desenho, como diversas outras manifestações da expressão, é silencioso, mas o mundo é sua ininterrupta voz e ela nos diz que outra vida é possível.

Yago Toscano