COM O QUE SONHAM AS ERVAS DANINHAS?
/ coletiva

Casa França-Brasil (Casa Brasil)
MAR 2025

Rio de Janeiro / Brasil


artistas

antoine de mena, bete esteves, bia martins, bianca madruga, fernando codeço, guilherme zarvos, jandir jr., jorge soledar, julia saldanha, katia maciel, leila danziger, leticia tandeta tartarotti, luiza leite, maíra nascimento, mano penalva, matheus rocha pitta, nuno ramos, rosana palazyan, sara ramo, vicente de mello

A coletiva de ocupação d’A Mesa para a Casa França-Brasil é dedicada à vegetalidade. A mudança climática tem as suas causas no processo de industrialização, pela necessidade de energia, obtida com a queima de madeira, ainda hoje relevante, contemporânea ao crescimento das cidades. A vida do campo, cada vez mais vazio, é dependente da lida com as plantas, mesmo assim com distanciamento. Os povos da floresta, como os ameríndios, vivem na vegetalidade, mas não debaixo de árvores, como em muitas cidades.

Cada vez fica mais evidente: a nossa espécie, para dispor de condições de permanência neste planeta depende de proporções de vegetalidade na qual não nos é dado viver imergidos. Já foi dito, a humanidade é a doença de pele da terra. Ora, para não desfazer sua viabilidade biológica, precisa impedir que a micose devore todo o corpo. Noutros termos, a vegetalidade nos é inacessível em seus termos e fazê-la acessível, aos nossos termos, é não sobreviver. As cidades mais responsáveis tomam iniciativas para se torna- rem mais verdes, para minimizarem o calor, afinal, é melhor a sensação de estar perto de parques e jardins. A hospitalidade vegetal, todavia, não diz muita coisa sem a vegetalidade inacessível.

A erva-daninha é essa presença não-conciliatória. Nenhuma planta é daninha. Não em si mesma. Ela é daninha em relação a ser ou não desejada. Da mesma forma que a lida de seleção com as espécies vegetais úteis, digamos assim, fez com que elas se fizessem de mais fácil cultivo, também as daninhas fizeram caminho parecido, quão menos se as quis, mais se tornaram resistentes. Contudo, diferente das bactérias, não prejudicam a vida humana, na verdade, bastando ser desejadas para não mais serem daninhas. Uma cidade é sempre assediada pela vegetalidade resistente. Ainda mais as nossas, em que a umidade e a temperatura são altas.

É comum se olhar para cima e notarmos plantas se apoderando dos sobrados do centro da cidade, dos edifícios abandonados, como o proprietário que não precisa de teto, brotando à direção do sol. Há um sonho de poder inconsciente nas ervas daninhas. Se todo sonho realiza um desejo, o delas nos habitua a entender, deve-se resistir a elas com menos ênfase: para sobrevivermos é preciso que sementes adormecidas tenham lugar. É mais sobre como sonham e menos sobre o porquê.

As intransigentes e pacientes condições da vegetalidade são utilizadas para convidar os artistas, de gerações diferentes, para se comporem ao isso do ser daninho, o umbigo é o centro desse sonho tão visto e tão apropriado pela imaginação inserida em realidade tão precária como a nossa. A educação superior é a das existências daninhas. Elas que, com- batidas a base de venenos, são tão resistentes. Por isso o casamento, sob medida, o tema da coletiva e a Casa França Brasil.

O Rio de Janeiro nunca se recuperou dos traumas causados pelo concreto em sua vegeta- lidade. Não há esquina em que a neurose não gagueje diante de construções monstruosas e viadutos a condenarem ruas belíssimas a trevas eternas. Há muito mais para ser ofereci- do a partir das necessidades das forças daninhas a esperarem um raio de sol.

Cesar Kiraly e Yago Toscano