DAR COM A LÍNGUA NOS DENTES
/ coletiva
Itinera Arte
MAI-JUN 2025
Rio de Janeiro / Brasil
artistas
andréa hygino, arthur palhano, bianca madruga, carolina lopes, gio soifer, íra barillo, marina borges, michel masson e yuri dias
O que pode uma língua quando não está a serviço da palavra? E mesmo quando o verbo surge, quem é esse corpo que fala? A quem se dirige e em que dinâmica essa língua emancipada opera diante dos discursos de poder ainda vigentes? “Dar com a língua nos dentes” trata-se de uma expressão idiomática que se refere a uma espécie de insubordinação – ao ato de cometer uma indiscrição com a língua – e nos serve como mote para refletir a insurreição da língua contra um modo estabelecido de narrar as questões do mundo e da vida, traindo o principio fundamental de um sentido unívoco. Se a língua nos surge como metáfora para espontaneidade das coisas que nos fala a matéria, ela se esquiva de ser contida na estrutura que garantiu um único modo de narrar a história e as experiências do mundo, expandindo-se para zonas sensíveis à margem do que nos disseram se tratar de um terceiro mundo – concedendo-nos, assim, a dádiva de sua polissemia e de suas diferenças.
Aqui, línguas traem o predicado e se bifurcam em zonas de sensibilidade e prazer, fricção e ficção, discurso e fabulação. Sua aspereza esculpe o mundo, ainda que revele, na superfície de seus vocábulos secretos, toda a sua fragilidade. Por vezes causam estranheza, ao estreitarem a zona de indistinção entre a humanidade e os outros seres, retomando a primazia de quando partilhávamos uma língua comum com os animais. Noutra ocasião, uma parede impõe seu tônus muscular e nos sussurra, em lambidas, as memórias de sua superfície. O lábio habituado a esculpir palavras cede espaço à língua que molda o céu da boca e convoca a origem de seus ancestrais, instaurando outra constelação de palavras afeitas com sua musculatura. Algumas se derretem ao chão e rastejam, rejeitando a lógica de produção capitalista enquanto nos convidam a partilhar de suas carícias terrenas. Quando uma língua sem corpo se declara, persiste a questão: quem de fato nos fala?
Este léxico de trabalhos nos abre a possibilidade de uma língua que corresponda a outros modos de viver e partilhar as experiências de mundo sem ignorar que nesse gesto reside uma partilha erótica. A língua, órgão muscular repleto de contradições, revela seu tônus ao excitar outras condições de sensibilização do corpo que prescindem da palavra. Se, por um lado, a língua produz manifestações expressivas nem sempre acolhidas com sensibilidade, por outro, é capaz de aguçar e tensionar as superfícies de contato do mundo sensível. As obras presentes se prolongam como exercícios de liberdade, reelaborando índices de presença ao reformular a maneira pela qual nos relacionamos com os outros entes não-humanos, dando devida atenção à sua maneira de nos confessar seus próprios modos de existir.
Se a dialética do pensamento ocidental pressupôs que a forma é um principio que atualiza a matéria – produzindo um assujeitamento da vida à forma –, os debates em arte contemporânea nos reposicionam diante de outros ensejos de reelaboração do mundo e de suas experiências sensíveis para além das lógicas de subserviência à linguagem. De modo com que a metonímia do pensamento não seja a linguagem, mas uma língua que se precipite sobre ela, que se antecipe à linguagem – convocando a vida na obra de arte não por um sopro que anima a matéria, mas por um beijo. Um mundo em que, portanto, os modos de experiência sensível não estejam condicionados a um saber vernacular em torno do pensamento em arte, mas de uma condição de fricção com outros sujeitos e de abrangência a fronteiras até então ignoradas – da escuta à voz das coisas e de seus apelos na superfície deste mesmo mundo.
Nesse sentido, as obras aqui presentes nos alertam para a possibilidade de reencantar o mundo por meio de experiências sensíveis que o convocam a outra dimensão de humanidade. Nessa experiência, as relações entre sujeito e objeto não se mostram apenas obsoletas: elas se dissolvem. Se as obras possuem intencionalidade e nos afetam, coexistindo e colaborando com nossos modos de sentir e existir, então elas têm algo a nos confessar. Esse algo não se orienta mais pela linguagem ou pelo pensamento — como propôs o projeto clássico europeu —, mas por uma zona de indistinção entre sujeito e objeto. Nela, a arte, como lugar fundamental para abranger tais questões, convalesce diante dos problemas que o Sul Global nos encoraja a enfrentar. É essa zona de diferença radical ante as questões do mundo que nos garantirá o direito de falar nossas presenças, tão necessárias quanto urgentes, para que outras maneiras de vivê-lo nos convoquem a distintos chamados à vida. Portanto, esculpir o mundo a outros modos de existência e de liberdade, assim como de seus sentidos intrínsecos.
Yago Toscano