EM NOME DA COISA
/ coletiva
FASAM Galeria + Cádmio
NOV 2025-JAN 2026
São Paulo / Brasil
artistas
amira rodrigues, alissa cica, ana leal, caio lima, fernanda luz, joão henrique nunes, marcos alegretti, marianne lépine, marina de falco, michel au hasard, paulo netto, pedro paulo de souza, rubens tiezzi e salua ares.
Uma obra de arte: todos e nenhum de nós
O programa “Práticas Artísticas Situadas” foi criado em 2025 com o objetivo de construir um grupo de pensamento e produção em arte que pudesse, ao longo de aproximadamente seis meses, debruçar- se sobre estudos teóricos e práticos que orbitam os atuais debates da arte contemporânea. Sua presente edição é fruto de uma parceria entre a ArteFASAM Galeria e a Cádmio, com o interesse de desenvolver um núcleo educativo que promova a produção de pensamento e debate sobre arte no contexto de uma galeria. Em sua primeira edição, o mote “Comunidade, Coletividade e Contágio” conduziu os encontros, divididos em dois grupos que, duas vezes por semana, se reuniram, compartilharam processos e exerceram livremente o debate crítico – colaborando uns com os outros em seus processos artísticos, além de refletir sobre questões e desenvolver proposições práticas de maneira coletiva.
O processo seletivo, realizado a partir de duplas contextuais, visava aproximar os artistas e suas práticas ou, até mesmo, promover tensões entre eles. Dessa forma, o processo artístico tornava-se um mediador de dinâmicas sociais, capaz de estabelecer uma topografia das relações. Sem conhecer previamente seus pares, os artistas naturalmente criaram aproximações e estabeleceram vínculos entre si, formando, por fim, novas duplas e até mesmo grupos guiados por estados de fricção, ficção e contágio – proporcionados pela natureza polissêmica de suas produções em arte. Desse modo, teceram outros emaranhados relacionais a partir de dinâmicas que revelaram tanto seus semelhantes quanto seus avessos conceituais, poéticos e formais e, assim, partilharam suas diferenças.
Para além do tema central que conduziu os encontros, estabelecemos, desde o princípio, questões fundamentais para nortear nossas práticas coletivas. Entre elas: que coisas acontecem quando estamos juntos? Que pontos surgem nessa rede de relações quando diferenças sociais, políticas, artísticas e, portanto, contextuais se encontram? Pode uma obra de arte ser um agente de dinâmicas sociais? Ao direcionar essas questões para debates teóricos pautados pela antropologia da arte, partimos de noções como agência, emaranhado e vitalidade. Esse percurso nos levou a questionar as definições de objeto e obra, substituindo- as pelo conceito de “coisa”. Interessava-nos, portanto, compreender as produções artísticas não mais por suas qualidades estéticas, plásticas ou formais, mas por seus predicados relacionais. Ora, se uma produção em arte é capaz de produzir sensações, criar redes de vínculo, induzir estados de avizinhamento e de especular outras dinâmicas de relação, importa menos o que ela é do que aquilo que é capaz de fazer no mundo.
As produções expostas “em nome da coisa” organizam-se, portanto, como um conjunto diverso de trabalhos que buscam apresentar respostas parciais — ainda que tenazes — às questões que nos movem. Frequentemente, a presença de uma manifestação expressiva incide sobre outra, revelando que, para além das intenções dos artistas, há aquelas que as obras autonomamente estimulam, especulam e discursam. Compreendemos, assim, que essas coisas produzidas em arte não funcionam como meros coeficientes em uma cadeia de significados, mas como seres de sensação: ainda que silenciem, ainda que desviem o olhar, ainda que lhes viremos as costas, sua presença permanece e nos acompanha. Que coisa é essa que persiste mesmo em sua ausência? Que coisa é essa que se aprende no caminho? Entre nós, uma obra de arte é todos e nenhum de nós — um emaranhado sensível que se constrói com diferenças, existindo no espaço tênue onde os sentidos se encontram e se dispersam. Uma obra de arte: todos e nenhum de nós.
Yago Toscano