Encanto
/ Vicente de Mello
Collegium Museum + Casa del Concejo
JUL-AGO 2025
Arévalo / Espanha
curadoria em colaboração com Aldones Nino
Ainda haverá mundo com o o que restar
O mundo nos convoca a contemplar suas dobras reflexivas, concedendo-nos seus dons ao figurar sua face oculta – aquilo que se devolve no que é percebido e nos faz observar suas relações encantadas. Toda figuração é, em essência, figuração das relações, levando-nos a refletir sobre como se formulam visualmente os vínculos mundanos, dos mundos imperceptíveis que se relacionam – mas de que perspectiva os acessamos? A arte preserva estados de autonomia daquilo que é percebido no mundo sensível, de modo com que a obra de arte seja um ser de sensação – ela existe em si. Ela nos dá a ver, nas dobras do mundo, sua capacidade de afetar, desorganizando radicalmente algo do campo semântico da vida contemplativa.
Pequenas inserções em contextos arquitetônicos, na paisagem, na vida compartilhada, nas ruas ou em monumentos: as obras trazidas ao texto geram aberturas que reencantam as percepções do cotidiano, levando-nos a questionar as próprias noções de mundo, política e sociedade. Que outras dinâmicas de relação e percepção com o espaço e o tempo surgem quando a arte atua nas brechas cotidianas? Que diálogos e vocabulários se constroem a partir dessas novas imaginações? E se é possível pensar a vida para além da conformidade dos dias, como a arte expande o imaginário, transformando nossas relações com o espaço, a natureza e as dimensões ocultas da sensibilidade e da receptividade? Esse conjunto de trabalhos revela um reposicionamento das práticas artísticas ao se desvencilharem de enquadramentos óbvios, tornando-se contextuais. Elas agem no campo das indeterminações cotidianas, intervêm nas formas de habitar, provocam inquietações e alteram a experiência do tempo e do espaço públicos.
Pli Selon Pli (2008), instalação do artista brasileiro Vicente de Mello, opera na lógica da dobra sobre dobra, como nos informa o título homônimo da peça do compositor francês Pierre Boulez, afetando o sentido e o modo de ver as coisas que já estão no mundo. Postes de luz fotografados em Varsóvia, na Polônia, designam indícios de notações musicais e partituras para o corpo, que ao serem observados sob o céu neutro são reduzidos ao traço do desenho. Um poste, objeto da vida cotidiana e banal, nos dá notícias de que as coisas que habitam o mundo possuem existências extraordinárias quando observadas de outro ponto de vista que redefine seu campo de referência comum. Exibida pela primeira vez em contexto internacional, a instalação – anteriormente realizada em contextos arquitetônicos como o SESC 24 de Maio (SP/Brasil), o Museu de Arte Moderna de São Paulo (SP/Brasil) e a Cidade das Artes no Rio de Janeiro (RJ/Brasil) – ganha outra dimensão ao se estabelecer a relação com a paisagem, na ocasião de sua exibição na fachada do Mirador de Arévalo. A ação compõe com o conjunto de trabalhos fotográficos que integram a exposição "Encanto", com curadoria de Aldones Nino e com o qual compartilho curadoria, a ser realizada no Centro de Interpretación de la Naturaleza localizado na Casa del Concejo, na Plaza del Real, sobre a Oficina de Turismo de Arévalo.
A questão da dobra, fundamental no conjunto de trabalhos exibidos no contexto da exposição, refere-se à devolutiva ao olhar quando observamos a dubiedade das coisas no cotidiano. Nesse sentido, o encantamento como eixo comum dos trabalhos que compõem a exposição viria demonstrar a intencionalidade de suas figurações diante do desejo de se tornarem outra coisa, para além da forma em que habitam. Um poste de luz deseja tornar-se uma partitura musical; uma toalha de banho dobrada intenciona ser um cisne; o que há de sensível na matéria é atravessado por forças que a fazem vibrar e deformar para além daquilo que constitui o gesto artístico de Vicente de Mello – ainda que ele nos dê evidências das improváveis ambiguidades presentes nas obras. Se a perspectiva, enquanto marco da narrativa pictórica, teria situado o sujeito a um ponto de fuga – separando-o e desencantando sua relação com o mundo, dadas as relações de hierarquia vigentes no regime de um olhar situado –, a constelação de partituras luminosas de Pli Selon Pli, em seu contexto imbricado com a paisagem, nos abre a essa infinita possibilidade vertiginosa do desencontro, desviando-nos do perigo de um ponto de fuga sem retorno – as entradas possíveis no mundo mostram-se múltiplas. O artista, atento ao caráter intimista das coisas, produz ensaios visuais em torno da paisagem, do corpo e dos objetos, conduzindo-os ao debate sobre o tempo em suas pequenas suspensões.
Na série de fotografias intitulada "Noite Americana", Vicente apresenta um conjunto de notações realizadas em condições precárias de iluminação, oferecendo-nos quase sempre indícios de vida latentes nesses fragmentos de mundo figurados. No entanto, no intervalo das recepções sensíveis, a arte e suas morfologias circunstanciais operam dinâmicas de evidenciação ao trazer para o debate narrativas conflituosas circunscritas na superfície do mundo. Este é o caso de "Encanto" (1999), trabalho fotográfico que intitula a mostra. O cisne encarnado na toalha de algodão sobre a cama no hotel de Havana transfigura seu lugar comum de objeto cotidiano, para nos falar dos fantasmas coloniais que ainda habitam em território cubano. Prática comum na hotelaria norte-americana, o processo de dobradura decorativa de toalhas em formatos de cisne seria utilizado, por apreensões mais ou menos simbólicas, para trazer os sentimentos de pureza, beleza e harmonia. Não seria incomum observar que esses mesmos sentimentos atuaram como princípio fundamental para justificar uma das maiores atrocidades modernas, servindo como mote para aniquilar toda e qualquer diferença transgressora. Última das colônias hispano-americanas, desde sua independência oficial, Cuba teria sido ocupada pelo exército norte-americano sob o pretexto de manter a paz e organizar o país. Mesmo após o processo de nacionalização, iniciado no início dos anos 1960, de desapropriação de empresas e terras dos americanos, de valorização de elementos do imaginário popular nacional e do estímulo do sentido de nacionalidade, práticas do imperialismo norte-americano persistiram por lá – e nos dizem, portanto, que um cisne não é só um cisne.
Toda obra de arte é contextual e situada. Como situação opera nas aberturas da superfície visível para causar tensões nas estruturas que ordenam nossa percepção de mundo, pondo em evidência parte dos conflitos que o integram. Não é possível observar as produções em arte atuais sem refletir as circunstâncias históricas, políticas e sociais que as contextualizam. Embora algumas das discussões atuais mais interessantes em arte dêem maior atenção a intencionalidade discursiva da obra, não é mais possível ignorar os fatores contextuais que precedem suas dinâmicas autônomas.
Yago Toscano