MORDE E ASSOPRA
/ João Livra

25M
NOV-DEZ 2025

São Paulo / Brasil

“Morde e Assopra” é a expressão que dá título à atual exposição de João Livra, de modo a pôr em evidência as assimetrias fundamentais e constitutivas de sua produção. As expressões idiomáticas, que corriqueiramente nos causam sentidos inesperados, quando atribuídas a objetos de apelos estéticos contíguos e dúbios, intensificam suas ambiguidades. É ao provocar à matéria mudanças estruturais e ao conjugá-la a essas expressões, que os objetos produzidos por Livra desorganizam o que seria facilmente apreensível no caráter contemplativo cotidiano. Dessas operações surgem elaborações imprevistas, sustentadas pelas qualidades escultóricas excedentes desses objetos que transformam, através de sua negociação com os meios de legitimação e de legibilidade da arte, a realidade social dos materiais aqui dispostos. Assim, o artista forja um dialeto formal próprio e produz objetos que habitam justamente nesse espaço de tensão, onde paradigmas, longe de se resolverem, tornam-se o ponto de nervura de sua poética insubmissa.

As composições objetuais de João Livra surgem de sua inquietação diante dos conflitos estéticos que as balizam, superando limites tidos como intransponíveis da tradição especulativa da escultura. Modo pelo qual a urgência desses objetos, caracterizada por uma motivação aguerrida frente à complacente e atual produção em arte, torna-se fundamental. O gesto de Livra, desloca e reapropria materiais, forjando figurações insubordinadas – que contestam, simultaneamente, a forma e o sentido que se dão a quem, diante delas, comparece. Deste modo, observamos um imponente conjunto de trabalhos constituídos de elementos vulgares e ordinários, dotados de uma persuasão aprazível – e desse modo conquistam estados estéticos elevados. Isto se torna evidente através dos esquemas composicionais guiados pela serialidade e pela repetição de procedimentos mínimos — moldar, erguer, apoiar, empilhar, organizar, juntar etc. – e por campos de força instaurados pela cor, de onde surgem, elegantemente, comentários de ambos os suportes irremediáveis da arte: escultura e pintura, respectivamente.

Os estados de ambiguidade tornam-se ainda mais evidentes quando a estrutura coerciva desses objetos se afeiçoa a dialetos delicados – é o caso de “Dourar a Pílula II”. Metáfora da mudança do caráter amargo dos acontecimentos por uma percepção mais suave de sua realidade incontornável, a expressão que nomeia a escultura – composta por dez pés de cabra soldados em formato de estrela –, apazigua sua aparência brutal e atribui outra percepção ao ponto de força de sua sustentação. Não se pode dizer, entretanto, se o fardo de sustentar seu eixo gravitacional é amenizado ou se o seu apelo estético demanda observar a suavidade com que se mantém de pé – importa, por algum motivo, sua alegria em relação a liberdade espacial que exerce, a partir do deslocamento metafórico das características obtusas que a constituem.

 Caso similar também ocorre em “Meio Mastro”. Produzido a partir do prolongamento de um rodo acoplado a uma lança escorada em uma das vigas do teto, o objeto sustenta um leve voil branco. Deslocado de seu horizonte funcional e projetado na verticalidade de um mastro, ele permite que Livra elogie as dimensões sociais e políticas presentes mesmo em objetos ordinários. Alçado a uma posição que evoca tanto o hasteamento de bandeiras quanto a elevação da forma escultórica, o trabalho estremece alguns dos princípios da escultura moderna: a verdade do material, a unidade entre a obra e sua relação com o mundo e, sobretudo, a recusa de qualquer hierarquia entre a base e a escultura. Ao fazê-lo, Livra explicita o cerne da sua ética apropriativa, evidenciando as incontáveis assimetrias em jogo, seja pelo vocabulário formal da arte e seus procedimentos incontornáveis, seja pelos símbolos universais associados aos objetos. Em ambos os casos, não deixa de operar uma crítica contundente aos meios de legitimação que regem tanto um quanto o outro, sobretudo quando observamos que o ato de erguer uma bandeira a meio mastro trata-se de uma insinuação à perda de alguma autoridade.

“Mandíbula”, “Boia” e “Hygienopolis”, entretanto, operam sob uma conformidade apenas aparente, mostram-se complacentes e acomodados sem, contudo, renunciar ao prenúncio da disparidade. As garrafas de Coca-Cola KS ajustam-se ao suporte que as acolhe — uma “mandíbula” feita de lanças de proteção para muros —, e é precisamente a advertência não-verbal inerente a esse material que acirra a distinção entre patrimônio público e privado. Dessa operação estética decorre uma indeterminação que impede desfechos previsíveis, desde que não se transgridam a integridade física dos materiais nem a advertência que esses objetos empregam em seu uso cotidiano.

Os conjuntos de moldes de parafinas e de jogos de marmitas de alumínio expõem a escansão de um vocabulário mínimo, responsável por dar corpo e maior escala aos aspectos tridimensionais dessas situações escultóricas. Empilhar, moldar e repetir, são operações elementares que fazem emergir os contrastes sociais impregnados nas propriedades desses materiais. É por esse caminho que a cera se apresenta de forma dicotômica – positivo do espaço vazio das marmitas e, simultaneamente, relativo da ideia de “boia”, expressão em que coincidem o ato de comer e o caldo ralo onde flutuam alimentos de baixos teor calórico e de baixo valor de mercado. Reafirma, assim, a assimetria dos duplos que constitui, em ambos os sentidos, as diferenças conceituais que são necessárias e indispensáveis para suas formulações críticas.

Em “Hygienopolis” as diferenças radicais e políticas postas pelos materiais tornam-se ainda mais evidentes. Observamos no trabalho uma porção de cacos de vidro estilhaçados – que, no entanto, não cortam –, dispostos serenamente sobre duas pás de lixo produzidas a partir de latas de cola e solvente, cujas arestas, estas sim, são cortantes. Algumas dessas tomadas de posição, conduzidas por estéticas improvisadas – da assepsia dos cacos de vidro à estética vulgar da pá de lixo –, figuram os conflitos das características materiais desses objetos e exigem atenção à sua inquietude opositiva, preservando sua natureza material fundamental, ainda que formulem outros debates, sobretudo políticos, diante de suas diferenças radicais. O bairro de Higienópolis, em São Paulo, por exemplo, surge a partir de um loteamento de luxo providenciado à elite paulistana no século XIX. O nome do bairro faz alusão ao fato de ter sido o primeiro a ter acesso ao saneamento básico e a contar com encanamento de esgoto e fornecimento de água, denotando que certos privilégios implicariam nas atuais contradições produzidas pelo desenvolvimento desigual da cidade e nas violências estruturais que se estendem sob a população.

Ao percorrer o espaço, elementos de cor decretam um campo de forças sedutor, tornado ainda mais intenso pelo contraste entre as composições vermelhas e os demais trabalhos, de caráter mais neutro. Um objeto, no entanto, produz um desvio, suspendendo a cadeia de expectativas formais até então estabelecida. Trata-se de uma folha de alface cuja leveza contraria o ponto de equilíbrio que se esperaria de uma bandeja de alumínio. Sua presença é persuasiva sem ser ostensiva – nas palavras de Livra, como “um ornamento que não diz ao que veio”. Apesar da aparente simplicidade e da certa indiferença que exerce frente às complexidades ao redor, é justamente para ela que os demais objetos parecem nos conduzir. Entre pontas de lança, mandíbulas, cacos de vidro – formas obtusas – e disposições materiais mais serenas, descobre-se uma terceira via de encontro. Como se entre morder e assoprar houvesse algo mais, de ordem fundamental, cuja sensatez não se pode – nem se deve – ignorar. Nada, no gesto escultórico de João Livra, é desorientado ou insensato.

 Seja o que for, é somente no exercício pleno da liberdade que uma produção conceitual complexa se deixa nomear por expressões e títulos singelos. Morder e assoprar, sabemos, são atitudes instintivas. Quando desprevenidos, abocanhamos algo cuja temperatura os lábios não suportam, aprendemos a tolerar as assimetrias fundamentais entre as coisas e suas propriedades constitutivas. Assim se apresentam as esculturas de João Livra. Elas consentem a contradição e medem a distância entre uma experiência crua de mundo e suas formas insubordinadas, que, ora perversas, ora solenes, preservam o risco do primeiro contato.

Yago Toscano