UM MILAGRE MENOR
/ Gabriel Loew
Centro Cultural Candido Mendes
DEZ 2024-JAN 2025
Rio de Janeiro / Brasil
Uma pequena janela que ocupava o fundo dos quadros inquietou-se, desorganizando o campo semântico da pintura para encontrar, em meados do século XVI, as condições estéticas que garantiram à paisagem seu lugar entre as produções renascentistas. Marc-Antoine Michiel teria descrito um "paesetto" ao utilizar, pela primeira vez, o termo paisagem para se referir à Tempestade (1505) de Giorgione. Essa pequena abertura ao mundo, antes relegada ao fundo das composições – presente desde pelo menos o século XV em diversos contextos históricos e geográficos da pintura – transforma-se no motivo revelador de presenças simultâneas, possibilitando a contemplação de tudo que coabita o espaço representacional da natureza. Contudo, com ela não vem o discurso. Surge como evento não narrativo, e nesse desamparo da palavra – que tradicionalmente organiza o tema ou pretexto da pintura – a paisagem encontrou seu destino como gênero menor.
A ausência de uma palavra que revele e destine os motivos dessa passagem produziu certa desorientação, pois o olhar, enquanto condição da destinação discursiva, é abandonado na passagem milagrosa desse desencontro. Diante de uma pintura, o olhar permanece cativo, perturbado pelos fatores do mundo, aprisionado nesse mundo. Poderíamos, no entanto, considerar a paisagem além do ponto que desorienta o discurso, vendo-a como possibilidade desconcertante da perda de destinação e da indefinição de fronteiras. Se diante da pintura o olho busca amparo, a paisagem bifurca caminhos; nela as fronteiras se dissolvem, a encruzilhada torna-se lugar de encontros que desorientam: outro olhar se faz possível.
As pinturas de Gabriel Loew habitam o lugar dessa indefinição. Em sua primeira individual, o artista apresenta um denso panorama de sua pesquisa sobre paisagem. Nelas, as presenças que motivam circunstancialmente a dimensão paisagística recusam qualquer premissa que pretenda perspectivar e organizar a "voz" do quadro. Um quadro, no entanto, não tem voz. Um quadro não fala, ele cria antes uma dupla ilação, da dívida à dádiva do olhar que, diante dele, perde seu destino e silencia, para então, a partir desse abandono, reelaborar seus caminhos. Ainda assim, tudo no conjunto de obras de Loew parece falar.
Seus pequenos seres e elementos – pássaros, plantas, sementes, rostos, bustos, até uma casa – organizam-se em simultaneidade distinta da noção perspectivada que nos é familiar. Há ali uma complexidade ecológica da imagem, onde as presenças negociam o espaço formal em que se revelam, sem disputar as condições que a matéria lhes oferece à sobrevivência. "Falam", se assim se pode dizer, respeitando mutuamente suas aparições, abrigando-se nas pequenas janelas que mostram sua constante impermanência – pois tudo ali está em movimento.
Vemos o vulto de um pássaro em voo deixar cair sementes de seu bico, estendendo pelo plano pictórico o semear simbólico de suas vegetações. Movimento que irrompe da pequena janela que dá passagem à árvore, revelando a semeadura primordial de um gesto. O vendaval produzido por essas asas confessa o sopro que atravessa as pinturas, submetendo-nos à força expressiva desse vento que tinge as diversas opacidades, intensidades e presenças desses pássaros em relação ao ambiente e seres que habitam.
A paisagem está ali, mas sua profundidade é outra. Nela não há hierarquia, mas compaixão – no sentido etimológico de "sentir junto". Surge como vocação do lamento da matéria; lugar inapreensível daquilo que é dado (a forma é dada, a matéria jamais). E diante da incapacidade de apreender a totalidade dessas forças, vemos um pequeno milagre que, longe de se reduzir a sua menoridade, desestabiliza – através do gesto sensível de Loew – um antigo conceito ainda passível de reelaboração. São imagens que já não se encarregam de amparar pela contemplação, mas de desnortear o ponto de vista. Diante delas, abandonados a seus caminhos, encontramos a possibilidade de estarmos acompanhados por seus seres, presenças e da dadivosa inquietação que tudo faz tremer – sobretudo o olhar: tudo em um pássaro é incerto e em pinturas, também.
Yago Toscano