DO QUE SÃO FEITOS OS DIAS
/ coletiva
Central Galeria
MAR-MAI 2026
São Paulo / Brasil
artistas
alexandre nitzsche cysne, artur barrio, bruno cançado, carmézia emiliano, c. l. salvaro, dora smék, érica storer, gabriela mureb, gretta sarfaty, lourival cuquinha, mariana manhães, ridyas e sérgio augusto porto.
As relações de causalidade e finalidade, tradicionalmente apoiadas na concepção de um tempo histórico linear, já não são capazes de responder à complexidade da vida contemporânea — tampouco de formular as perguntas capazes de interrogar nossa inquietação diante de épocas marcadas por disjunções e disparidades no âmbito da vida. A percepção relativa do mundo, para citar um dos incontáveis exemplos, teria colocado à prova o tempo absoluto newtoniano e tornado as leis naturais independentes do ponto de vista do observador, colocando-o no centro da percepção da realidade. Significa dizer que, sendo os pontos de vista diversos e inerentes à percepção subjetiva do mundo, a ideia de tempo depende de um fator sensível para ser moldada à perspectiva de seu observador, não havendo, portanto, uma unidade que seja comum a todos.
A atomização do projeto moderno de tempo histórico, como direção para a qual a humanidade se destina e na qual encontra seu sentido último – horizonte de um consenso sempre esperado, idealização da unidade sonhada pelo Ocidente e prometida pela modernidade –, teria nos conduzido a viver, agora, relações de tempo em dissonância, não havendo mais uma limitação do tempo no agora. O esgotamento de uma visão unívoca do tempo, que reiterou o homogêneo e o contínuo, nos obrigou, contudo, a perceber a emergência de temporalidades estranhas — espiralares, avessas e fronteiriças — constituídas por narrativas plurais e polissêmicas.
Agora, temporalidades distintas coincidem; reflexões históricas que respondiam a problemas modernos persistem fazendo sentido porque, nessa trama, os problemas permanecem os mesmos. Diante disso, questionamos: como as produções em arte respondem à imprecisão deste momento? Ou seria justamente nessa imprecisão que a arte vem a acontecer? São essas oscilações entre tempos avessos, anacrônicos e concomitantes que conferem à exposição “Do que são feitos os dias” seu caráter complexo e amplo, além de figurarem como mote da mostra coletiva que celebra dez anos de atuação da Central. Reunindo treze artistas representados pela galeria, tomamos como ponto de partida o percurso e as ações realizadas ao longo da última década para refletir sobre esse marco e atualizar discussões fundamentais no campo da arte por meio do encontro entre obras cujo diálogo se dá em relações e temporalidades excepcionais.
Observamos, aqui, um jogo entre as produções e os momentos em que elas acontecem. A coletiva reúne desde instalações e remontagens de obras históricas até produções ainda inéditas dos artistas representados. Se, por um lado, trabalhos de peso histórico revelam radicalidade e pertinência, em sintonia com os debates da atualidade, por outro, práticas ainda emergentes demonstram consolidação em suas narrativas plásticas e poéticas, sem perder força em seus discursos quando colocadas em diálogo com as obras históricas. Isto nos leva a refletir que talvez seja próprio dos objetos de arte não pertencer a nenhum tempo específico – talvez a todos eles, mas sempre como se proviessem e se destinassem a outro tempo, permanentemente suspensos.
O filósofo italiano Giorgio Agamben teria refletido que é próprio do ser contemporâneo estar em inconformidade com seu tempo. Para ele, tomar posição em relação ao presente implicaria em distanciar-se, estar em constante relação de aderência e dissociação do agora, para assim refleti-lo. É próprio do ser contemporâneo estar inquieto em relação com o mundo e seus limites intransponíveis, sejam eles políticos, filosóficos, espaciais ou temporais. Assim como nós, objetos aos quais damos o nome de arte produzem sensações, reagem de maneira autônoma, sobrevivem à vida e têm como lugar próprio a inquietação em relação ao seu tempo. O que lhes confere caráter excepcional, no entanto, é estar além da vida, além do tempo.
Fundamento do projeto moderno, a neutralidade do espaço expositivo — o cubo branco — surge como um oásis que estanca o tempo para separar as experiências estéticas da vida cotidiana. A ideia, de modo geral, seria isolar a experiência sensível da arte e determiná-la a compreensões e enquadramentos específicos, geralmente direcionados a discursos nobres e elitistas, fazendo com que não seja possível pensar em nada além daquilo que se vê. No entanto, os trabalhos desta mostra nos convocam para fora; os limites entre espaço público e privado vão sendo borrados, e observamos a construção de um conflito dentro desse espaço.
Manifestações mundanas e operações corriqueiras como regar cotidianamente um jardim e a apropriação de uma escada rudimentar produzida para solução de um problema simples, formam outras inteligências formais e sensíveis. Letreiros comumente utilizados em anúncios de lojas, visíveis em toda a cidade, pretendem desestabilizar o capital ainda que, com inteligência irônica e reivindicatória, se voltem para a lógica de seu consumo enquanto objeto mercadológico. Um conjunto de desenhos apresenta as obscenidades e a total impassibilidade do mundo que, de maneira irreverente, nos chegam sem que os convidemos. Práticas ancestrais desmobilizam a lógica produtiva ao estabelecer outras relações com a terra, conduzindo-nos a dinâmicas colaborativas e de partilha moldadas pelo saber de uma comunidade em torno da sua percepção de tempo. Coisas e corpos são suspensos e questionam os limites da política, das convenções sociais e de gênero. Objetos desamparados no mundo são acolhidos e reinseridos no âmbito da vida e da produção de sentidos. A galeria passa a ser um reflexo das condições externas e atua como um dos dispositivos responsáveis pela produção de debate em arte. Agora, a vida não é complacente e novas experiências nem sempre são harmoniosas: é no contraste do que compõe esse diálogo entre as obras que somos capazes de entender o que nos forma.
No entanto, realizar uma exposição coletiva, para refletir esse marco, não consiste apenas na discussão da relação entre as obras e suas temporalidades excepcionais, mas também da relação entre todas as pessoas que participam da construção dessa possibilidade. Pensamos, portanto, o espaço expositivo como lugar em que inteligências de toda ordem comparecem, maneira pela qual compreendemos que uma experiência em arte não se constrói sozinha. Se o tempo, como propusemos, tem suas particularidades associadas a percepções subjetivas, as diferentes escalas de percepção sensível dos agentes externos ao espaço expositivo implicam diretamente na formação de um conhecimento empírico em torno das obras de arte e do que aqui se produz.
Portanto, realizam esta exposição e também assinam este texto, nominalmente citados: Fernanda Resstom, Suzana Resstom, Mar Yamanoi, Maria Faoro, Léo Idalecio, Elaine Ferreira, Sandra Oliveira e sua família; a equipe da Galeria Vermelho, com quem igualmente dividimos este sonho; Sylvana Cetinic e a equipe da Syl Arte Molduras, que cuidadosamente preparam as molduras de nossas obras; José Elias Latuf, que realiza o transporte de nossos trabalhos com segurança; Laésio Rodrigues de Melo, Carlos Melim, Níke Krepischi e Fred Filippe, que possibilitaram a montagem desta exposição e de tantas outras; Roderico, Paula, Fabiano e toda a equipe do Estúdio Campo, por contribuírem na formação de nossa identidade; nossos colaboradores Eliana Finkelstein, Jarbas Veloso e Ana Pigosso. Curadores, jornalistas, colecionadores e artistas, por concederem confiança em nossos projetos e pelas frutíferas trocas; André Millan pela contribuição na realização dessa mostra; os artistas que compõem nosso programa e que participam da exposição: Alexandre Nitzsche Cysne, Artur Barrio, Bruno Cançado, Carmézia Emiliano, C. L. Salvaro, Dora Smék, Érica Storer, Gabriela Mureb, Gretta Sarfaty, Lourival Cuquinha, Mariana Manhães, Ridyas e Sérgio Augusto Porto. O cuidado de passar por muitas mãos nos garante que, entre pontos de força e zonas de suavidade, ainda seremos capazes de tecer os caminhos possíveis para o futuro de nossas ações. Os dias são feitos disso.
Guilherme Tavares e Yago Toscano