MARIA
/ Raphael Escobar

Central Galeria
AGO-SET 2026

São Paulo / Brasil

Mediação e Presença 

Raphael Escobar é o artista das presenças – de todas elas. Não obstante, é com os excluídos, os invisibilizados, os marginalizados e os socialmente vulneráveis que comunga saberes e práticas de liberdade, construindo grande parte de suas iniciativas em arte e educação – fazendo das políticas afirmativas e dos direitos inalienáveis aspectos constitutivos e fundamentais de sua produção e do corpo de sua obra.

Com uma década e meia de atuação, Escobar vem desenvolvendo um campo consistente de práticas, movido pelo interesse em desorganizar as dinâmicas intrínsecas das relações de classe e em provocar as complexidades sociais inerentes às dimensões da vida pública e privada. É desse compromisso que derivam suas intervenções urbanas, práticas experimentais em arte e ações socioculturais, todas orientadas pelo enfrentamento radical da distribuição desigual de recursos e pela formação de uma rede de economia solidária, na qual se valorizam o trabalho coletivo, a autogestão, a troca justa e o livre acesso ao saber, à educação e à cultura – restrição quase sempre dirigida a certos grupos historicamente oprimidos e marginalizados, tanto pela sociedade quanto pela máquina coercitiva do Estado e pelo capitalismo contemporâneo. 

Justo por isso, as dimensões do fora e do dentro, do público e do privado, tornaram-se incontornáveis em suas equações poéticas. Foi o que o teria levado a conceber instalações, happenings, estratégias de cuidado – ou, como prefere chamar, mediações – capazes de borrar os limites e a suposta impermeabilidade de certos espaços de privilégio. Esses espaços se tornam, assim, mais porosos, atraentes e acolhedores para pessoas em situação de vulnerabilidade econômica e social, em reabilitação do uso de drogas ou em processo de ressocialização. Nesse sentido, entre suas ações mais emblemáticas, destaca-se a intervenção Open Bar, realizada em 2016 na Red Bull Station, quando o artista construiu um alambique artesanal e, por meio da distribuição gratuita de cachaça, subverteu os códigos de acesso da instituição, franqueando a pessoas em situação de rua a entrada no espaço. O interesse de Escobar residia, contudo, na mediação – na possibilidade de trazer o fora para dentro, permitindo que as pessoas se sentissem pertencentes ao espaço sem distinção de classe ou condição social.

Interessa a Escobar subverter as lógicas que tentam tornar ainda mais assimétricas as distinções entre classe social, representação e pertencimento – sobretudo no que diz respeito à disposição dos espaços e dos aparelhos de produção, de fomento e de acesso à cultura, como museus, galerias e centros culturais. É nesse sentido que ele cunha as noções de “não-público” e “antipúblico”: o primeiro nomeia aqueles que não têm acesso aos equipamentos culturais “devido a barreiras físicas, econômicas ou culturais”; o segundo, aqueles que são “impedidos de frequentar este espaço”. Escobar quer fazê-los presentes sem se ater, contudo, a recursos de fácil apreensão e legibilidade no mundo da arte, quase sempre restritos à fabricação de um repertório limitado de imagens que procura vincular-se ao debate da representação. Ao contrário, está comprometido em não se render tão facilmente à representação, mas em radicalizar o problema que a enquadra como camada menor de uma questão política ainda mais densa: a representação, por si só, não garante a presença, tampouco a sua reparação. O artista afirma mediar conflitos culturais; no entanto, creio que seu ofício é, se não os intensificar, produzi-los de maneira mais eficiente. 

Compaixões

Em sua ocupação na Central, Escobar dá continuidade à pesquisa iniciada em 2025, durante residência artística no Centro de Arte Fundación María José Jove, na Espanha. Nessa ocasião, contratou dez trabalhadores de ofícios frequentemente invisibilizados – faxineiras, cozinheiros, técnicos – para formar um coral cuja sonoridade se compõe de assobios, murmúrios e outros ruídos próprios de suas rotinas e ambientes de trabalho. Contudo, todos foram contratados pela instituição na condição de artistas, integrando formalmente as atividades de seu programa. 

Aguerrido de um profundo interesse em tensionar as relações de classe e as dinâmicas de exclusão que delas decorrem, Escobar insere presenças onde a neutralidade sociocultural propõe-se prevalecer, provocando tensões sutis que revelam os conflitos inerentes a esses espaços. Ao inserir pessoas em posição de desigualdade social como agentes de produção sensível e cultural, Escobar produz uma virada epistemológica, uma mudança de polaridade que redefine de onde e para quem se dirigem a sensibilidade, a cultura, a poética e suas sutilezas. O projeto visava, ainda, à formação de uma consciência estética a partir de um corpo coletivo, moldando a sensibilidade comum desde uma atividade corriqueira – instante em que a experiência em arte viria a se realizar. 

Há quem ainda suponha que a fruição estética se restrinja a espaços específicos ou aos suportes tradicionais da arte. A sensibilidade, porém, tece redes irrestritas de relações: a experiência sensível implica deixar-se tocar no ponto mais singelo dessa equação – lembrar o rosto de alguém amado ao ler um poema, assimilar uma imagem a uma memória pessoal, reencontrar o som da voz da avó ao ouvir uma canção. É o que faz Escobar em “Maria”. Neto de Maria Bernardina, Escobar vem de uma família nordestina que migrou de Alagoas para São Paulo ainda nos anos 1940, em busca de condições mais dignas de vida e de trabalho. Maria trabalhou por anos em casas de família e mesmo em uma metalúrgica, mas foi na costura que encontrou seu ofício. É em homenagem à avó que o artista convida outra trabalhadora, Celia Regina Martins, para cantarolar canções ao longo de sua rotina de trabalho como costureira.

No espaço, habita uma silhueta de presença. O corpo aqui se manifesta em sua forma mais bela quando a pessoalidade se dilui na produção de uma sensibilidade coletiva, tocada pela memória dessas muitas canções — canções de trabalho. Escobar se ocupa das presenças, de produzir trabalhos que guardam contornos de gente, dessas muitas gentes que comparecem diante e através de uma experiência sensível. Maria nos comparece como presença que se atualiza na voz de outra trabalhadora e transforma a memória familiar em matéria sensível e coletiva, lembrando que a experiência estética pode nascer dos afetos mais íntimos sem se limitar a eles. 

Maria é avó; Maria trabalha; Regina é Maria; Regina também é mãe; Maria trabalha para fazer viver Regina; Maria também é o nome que Escobar deu a sua filha; Escobar trabalha para fazer viver Maria. 

15 de agosto de 2026, Assunção da Virgem Maria.

Yago Toscano