REBU
/ coletiva
Central Galeria
JUN-AGO 2026
São Paulo / Brasil
artistas
alberto lamback, alice yura, almeida da silva, amanda fahur, ana matheus abbade, ana paula sirino, anthony mazza, asmahen jaloul, cicero silva, conativo, deni lantz, gabriel roemer, jean deffense, joão nascimento, kuenan mayu, luís teixeira, luiz carlos paulino, luiza lukah, mari ra, nati canto, olivia lacerda, samara paiva, silia moan, thany sanches, thiago gonçalves e victoria serednicki
“Decida ousar, nem que seja na cor do esmalte”
I. O rebu é a tendência mais quente
No horizonte vasto da arte contemporânea, onde direções, debates e possibilidades materiais parecem inesgotáveis, organizar uma exposição majoritariamente composta por pinturas talvez seja um dos gestos mais discretamente radicais que ainda nos cabem — menos por sua longa e apreciada tradição histórica do que pela coragem de se mostrar onde o mercado já supõe esgotado o novo. No entanto, longe de se tornar um território de debate trivial, a pintura é reivindicada como o lugar onde artistas de distintas gerações e contextos sociais e políticos ensaiam um obstinado exercício crítico, tendo a própria pintura como pretexto e impasse para reelaborar e responder a antigos — mas ainda persistentes — problemas no campo da arte.
Não à toa, a arte se vê confrontada por outras presenças, corpos, imaginários, sujeitos e repertórios que permitem não apenas expandir seu campo de debate, mas redistribuir de maneira igualitária aquilo que, ao longo dos séculos, esteve destinado às elites e classes dominantes, como o acesso ao próprio debate especializado da arte e a seus materiais por excelência. Realizar esta mostra é, portanto, criar um ambiente propício para que práticas e produções artísticas jovens proliferem e se insiram no circuito, desarmando criticamente as disposições históricas, sociais e estruturais que sustentam uma ideia hegemônica de arte.
Se o contexto de uma galeria prevê um quê de cinismo em realizá-lo, é justamente por isso que devemos fazê-lo: para ampliar a (auto)crítica e contextualizar debates que, de algum modo, desafiam sua estrutura, abrindo-a a interferências que, ao trazerem para a discussão produções com outros contornos narrativos, políticos e ontológicos, desorientam suas dinâmicas implícitas e, por fim, o modo como o espaço de uma galeria funciona, é visto ou concebido.
II. A pureza é um mito
A palavra “rebu”, redução vocabular de “rebuliço”, foi popularizada pelo colunista social Ibrahim Sued na década de 1960 e designava, então, a confusão, o festejo, o alvoroço. Não por acaso, o bordão emprestou seu título à novela exibida em 1974, cuja trama se armava em torno de um assassinato ocorrido durante uma festa. A recepção popular do folhetim foi tamanha que, ainda no mesmo ano, a Risqué lançou uma edição de esmalte homônima, na cor vermelho translúcido. O que se seguiu foi uma pequena linhagem de vermelhos que deslocava o interesse do tom em si para a sua capacidade de se relacionar com outros pigmentos da marca – de tal modo que sobrepor e combinar camadas tornou-se o verdadeiro programa do esmalte.
Cor das contradições, do pecado, do excesso e da aristocracia, o vermelho também nomeava o canto mais puro da casa e das igrejas, onde se encontrava, então, a iconóstase — local que separava o ícone e sua pureza daquilo que era popular, vulgar, corriqueiro, e que, por via de regra, teria conduzido à relação de pureza e assepsia tão caras à arte moderna, ao impedir que, tanto o espaço da fé quanto o da fruição estética fossem contaminados pelo mundo, respectivamente.
Nesse sentido, o rebu é esse rumor que chega sem anunciar a que veio, não declara programa, mas desorganiza algo de protocolar e programático. Sua aposta está na fricção e no atrito como forças capazes de afrontar as disposições ainda naturalizadas em um ambiente que se pretende horizontal e arejado, mas que administra com zelo suas fronteiras, mostrando-se resistente ao que lhe é exterior. No entanto, como sabemos, a pureza é um mito.
Não à toa, rebu também é o mote desta exposição, pelo qual ensaiamos aproximações, tensões e provocações a partir dos trabalhos dos vinte e seis artistas aqui reunidos, expondo justamente a fragilidade de qualquer fronteira que pretenda isolar a pureza das coisas do mundo comum a todos. A pureza da arte, no entanto, jamais esteve imune à intervenção do que lhe é supostamente exterior. A pintura, sobretudo — suporte mais convencional da arte —, não deixa de ser o lugar onde esse tipo de fragilidade se apresenta em maior evidência e, portanto, se torna também mais apta ao debate, disputa e renegociação de seus significados simbólicos, mas também sociais e políticos, intrínsecos.
III. Se não for pra tocar o rebu, nem me chama
Assumir essa condição desde dentro de uma galeria implica reconhecer que o rumor que acolhemos como método é o mesmo que interroga os enquadramentos e os regimes de legitimação que tornam esta exposição possível — seus critérios, suas hierarquias de acesso, seus modos de chancelar as produções, etc. O que se ensaia aqui, longe de pretender superar as contradições do circuito, dispõe-se a sustentá-las onde elas são mais produtivas: na apresentação de produções jovens, na ampliação das vias de acesso, na reflexão sobre o comprometimento das galerias com a produção do debate em arte — diante do qual a própria ideia de arte e, por consequência, de galeria, estão implicadas.
Interessa-nos especular o esgotamento de formatos obsoletos e ensaiar outras organizações sociais que ponham em foco distintas presenças e práticas artísticas, administrando a circulação das produções com mais horizontalidade e porosidade. Não à toa, a “curadoria” desta mostra foi realizada a muitas mãos, entre todos os membros que constituem a equipe da galeria, compondo uma rede de relações mais ampla, plural e significativa, pouco preocupada, contudo, com amarras, conceitos e determinações poéticas. Os excessos que estruturam nossas decisões possuem, portanto, densidade e vontade política — e diante dessa vontade, pinturas comparecem com a opacidade de quem não se deixa domesticar. Nesse quesito, pinturas não mentem.
Yago Toscano